Resenha: Elfos


Como tentativa – espero eu que bem sucedida – de curar a terrível ressaca literária que me acomete, escrevi esta resenha para dividir com os belíssimos leitores todos os sentimentos que me invadiram durante e após a leitura da trilogia Elfos, do escritor alemão Bernhard Hennen.

Há alguns meses atrás, fiz resenha de A Caçada dos Elfos, primeiro livro da trilogia. Comecei a ler a continuação chamada As Estrelas dos Albos, mas parei por algum motivo bobo e, quando retomei, só parei ao terminar o Tomo III, As Pedras dos Albos.
Tudo começa quando Mandred, um humano, é atacado por uma besta que aterrorizava seu povoado. Ferido, consegue escapar e acaba adentrando o Mundo dos Elfos. Ao contar sua história, consegue que a rainha do povo élfico destaque dois dos seus melhores guerreiros, Nuramon e Farodin, para ajudá-lo a caçar o monstro. No entanto, ambos têm suas próprias ambições e disputam o amor da feiticeira Noroelle, que enfrenta um exílio terrível, e pretendem resgatá-la. Nesta caçada, lealdade, amizade e coragem serão duramente postas à prova.
Escrita pelo alemão Bernhard Hennen, a saga Elfos é uma das mais famosas obras de fantasia da Europa. Ao todo, tem cinco livros, dos quais três foram publicados no Brasil pela Editora Europa em 2012 (no site, é possível ler o primeiro capítulo). Apesar de não ter encontrado os demais livros em inglês, ao que parece, os três primeiros contam uma história completa, sendo os dois últimos focados em personagens menores.

Fazia um tempo que não me envolvia com um livro dessa forma (creio que o último foi A Hospedeira). A cada página, ia me apegando mais aos personagens, me entristecendo quando algo ruim acontecia, ficando feliz com cada pequena vitória e sempre querendo saber mais sobre cada um.

Em A Caçada dos Elfos, pude notar alguns defeitos como descrições demasiadamente superficiais, personagens rasos e sem carisma, uso de ferramenta estranha para indicar saltos no tempo e final abrupto. Entretanto, felizmente, não encontrei nenhum desses problemas nos livros que se seguiram.
“Desculpe-me. Não conheço muito bem todas as tradições”. “Você nunca sonhou em participar da Caçada dos Elfos? Toda criança sonha, conhece as tradições e cada um dos passos da trilha que se percorre nessa noite”. “Uma criança que não se sente aceita em lugar nenhum sonha com coisas menores” — A Caçada dos Elfos, Tomo I.

Hennen evoluiu bastante e soube trabalhar o universo e personagens que havia criado. Mesmo o instrumento que utilizava para mostrar que anos se passaram – e que o fez parecer um escritor preguiçoso na primeira obra – foi mais bem aproveitado dessa vez, tornando-os capazes de deixar o leitor com o coração na mão sempre que os via e se perguntando o que aconteceria dessa vez.

A história é bem elaborada, há muitas reviravoltas e o autor consegue encaixar um obstáculo ao outro de maneira sólida. Não me lembro de ter adivinhado o que iria acontecer em momento algum. Cada luta era uma emoção, onde nunca sabia quem iria sair vencedor, já que personagens apareciam, ganhavam o coração do leitor e eram arrancados de nós sem o menor dó. Para Elfos, vale o conselho “não se apegue a ninguém”.

O livro é narrado em terceira pessoa () e os pontos de vista alternam-se entre Farodin, Nuramon e Mandred, e cada um é fascinante a sua própria maneira. Farodin é sério, cheio de segredos, baseia-se na lógica e tem um senso de justiça próprio (próprio, não certo); Nuramon é o elfo desprezado que acaba apreciando tudo de forma única e apaixonada; e Mandred é o único humano, mal educado e orgulhoso, mas que faria qualquer coisa por um amigo.

A partir de As  Estrelas dos Albos, não há ausência de detalhes, como em A Caçada dos Elfos, nem descrição desnecessária das paredes, das ruas, do galho da árvore do lado esquerdo da luz esverdeada e-- Acho que vocês entenderam. Não estamos falando da Becca Fitzpatrick aqui. O tal salto no tempo ainda serve como tapa-buracos, mas já não é tão descarado como foi um dia.

“O que você não vê ainda assim pode acontecer, Alwerich. Só quando aquilo que você vê não acontecer é que deve começar a se preocupar” — As Estrelas dos Albos, Tomo II.

A saga não é o que eu chamaria de “romance”, mas uma de suas características mais marcantes é a superioridade dos elfos na esfera emocional. Um exemplo disso é o amor de Farodin e Nuramon por Noroelle, que não os torna inimigos ou desperta qualquer sentimento de inveja. A elfa, por sua vez, ama os dois igualmente, declarando que, independente de qual pretendente escolher, sofrerá uma dor terrível.

Emerelle, a poderosa rainha dos elfos, também é um personagem muito interessante. Por vezes fria, quase tirana, porém, ao mesmo tempo, amável, bondosa, uma mãe para todos os que se encontram em seu reino. Em diversos momentos, me perguntei como poderia classificá-la, mas, no último livro, compreendi que ela não deve ser rotulada.

Falando em Pedras dos Albos, este é o que contém mais ação e batalhas. Para o leitor que não é habituado, talvez seja necessário ler algumas partes mais de uma vez para absorver tudo, embora não seja nada de outro mundo. Há também explicações sobre armas mais incomuns nos rodapés.

O cavaleiro elfo deu um salto no ar e pegou uma das malditas garrafas de fogo de Balbar. Segurava-a triunfante no alto quando uma esfera fulminou sua mão. O óleo escuro espirrou e incendiou-se no trapo em chamas da garrafa. As labaredas cobriram sua cabeça e armadura. Por um instante, o elfo ficou totalmente imóvel. Então sacou a espada com a mão ilesa e correu aos gritos em direção a uma fila de atiradores inimigos. Farodin assistiu ao que aconteceu sem respirar. [...] “Guerreiros como ele só nascem uma vez a cada mil anos”, disse o Duque dos trolls. — As Pedras dos Albos, Tomo III.

O Tomo III me fez verter lágrimas três ou quatro vezes. Também pude sentir revoltaindignação e raiva em algumas ocasiões. No entanto, mais marcante que estes, foi o choque com momentos que envolviam uma quase adoção, escolhas, guerras inesperadas, uma rainha viúva, uma nação orgulhosa destruída, mortes e mais mortes... Não tinha como não se chocar.



O final é satisfatório, meio triste e conclusivo. Não há milhões de detalhes sobre o que aconteceu a cada um dos personagens, mas, sinceramente, achei melhor dessa forma. O objetivo inicial, que foi mencionado ainda na sinopse do primeiro livro, jamais é esquecido, tendo seu desfecho no último capitulo.

Não é clichê. Também não existe um forçado “e foram todos, sem exceção, felizes para sempre, realizando todos os seus sonhos”. Nopes. A vida não é assim com ninguém. Nem com os filhos dos albos.

Por fim, digo que foi uma leitura bem divertida e envolvente. O começo foi meio arrastado e a inexperiência do autor com sua própria história é visível, mas há uma melhora considerável a partir do segundo livro, tornando fácil se apegar aos personagens e ao mundo criado. É uma obra que, mesmo não sendo a melhor do mundo, se despede deixando aquela sensação de vazio no peito e muita, muita saudade.

Oh, doce saudade! Mas que presente o seu! — As Pedras dos Albos, Tomo III.

 
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