Resenha: Starters + Enders


Hoje, farei resenha dupla da duologia Starters, saga que foi lançada há algum tempo no Brasil. O primeiro livro leva o nome da série, o segundo chama-se Enders e ambos foram escritos por Lissa Price, escritora estadunidense que tem nessa obra seu primeiro livro publicado.

Starters despertou minha curiosidade logo quando vi o anúncio no Submarino: capa belíssima, premissa interessante, um futuro pós-guerra legal e uma protagonista jovem protegendo seu irmão mais novo (amor demais ). Tinha muitos elementos que contribuem para uma boa história, não é? Vamos conferir se deu certo!

STARTERS
Sobreviver é apenas o começo
Callie perdeu os pais quando a Guerra dos Esporos varreu todas as pessoas entre 20 e 60 anos. Ela e seu irmão mais novo, Tyler, estão se virando, vivendo como desabrigados com seu amigo Michael e lutando contra rebeldes que os matariam por uma bolacha. A única esperança de Callie é a Prime Destinations, um lugar perturbador em Berverly Hills que abriga uma misteriosa figura conhecida como o VelhoLá, adolescentes podem disponibilizar seus corpos e habilidades para serem alugados por Enders – idosos que desejam ser jovens novamente. Desesperada pelo dinheiro que os ajudará a sobreviver, Callie concorda em ser uma doadora, mas o neurochip que colocam na garota está com defeito e ela acorda no momento errado. Viver a vida de sua riquíssima “inquilina” quase parece um conto de fadas, até Callie descobrir que ela pretendia fazer muito mais do que se divertir – e que os planos de Prime Destinations vão além de lucrar usando Starters desesperados.

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Starters chegou ao Brasil em 2012 através da editora Novo Conceito e tenho que dizer que o livro é dono de uma capa belíssima e ótima diagramação, uma adição perfeita a sua estante... Pelo menos no aspecto visual, que foi a primeira coisa a chamar minha atenção. Após ver a capa, procurei resenhas e, como muitas falavam bem, ter esse livro se tornou um dos meus objetivos.

Quando finalmente consegui tê-lo, percebi coisas que não eram tão bonitas assim. A começar pela escrita de Price, que falha em fazer alguém se importar com o que vai acontecer com os personagens, algo que valorizo muito. Um dos motivos é o fato de seus personagens serem vazios – alguns poderiam nem existir e não faria diferença alguma.

Neste universo, pessoas com menos de 20 anos são chamadas de Starters; a partir dos 21 até os 60 são conhecidas como Middles; e, depois disso, se tornam Enders. Lembrando que, com o avanço da tecnologia e da medicina, as pessoas podem viver até os 200 anos. Logo, entende-se que existe cura para quase tudo... Exceto para a doença do irmão de Callie.

A história em si tem muitos clichês, como a “tosse da morte” de Tyler, mal que assola a literatura. Faltam-me dedos para contar quantos já apresentaram tosse e febre como únicos sinais de uma doença fatal (ou rara ou rara e fatal). Quero dizer: ele precisava mesmo estar doente? Ver seu irmãozinho passando fome e frio já não era motivos suficientes para arriscar disponibilizar o corpo?

Falando nisso, Callie menciona amar e estar preocupada com o irmão diversas vezes, mas é impossível sentir tal coisa através da leitura, como aconteceu com Peg/Mel e Jamie de A Hospedeira. Este último me fez verter lágrimas e me apegar ao garoto principalmente porque elas o amavam, porém não consegui me importar tanto com Tyler ou com os sentimentos de Callie por ele.

Isso se deve também ao fato de Tyler ser um personagem mal construído e difícil de acreditar, afinal o garoto tem sete anos e fala como um adulto. Sem contar a “admiração” que tem por Callie e o fato de ela ser uma figura parental para ele. Não sei se a autora tem irmãos, mas eu, por acaso, tenho uma irmã mais nova com a qual tenho quase a mesma diferença de idade que esses dois e: não consegui me identificar nem um pouco com o relacionamento deles.

Enfim, para um livro narrado em primeira pessoa, é um ponto negativo não conseguir fazer o leitor sentir as emoções da protagonista que, apesar de não estar detestável, não é a mais interessante. Para ser sincera, parece que ela está sempre a um passo de ser uma ótima personagem principal, mas nunca chega lá.

O livro tem muitas reviravoltas e, entre elas, alguns muitos acontecimentos “estranhamente convenientes”, mas não dá para dizer que é ruim ou ridículo ao extremo. Tem vários furos, mas boa parte dos YA que li também os têm – e ainda mais grotescos – e isso não impediu de agradarem a muitos.

Ao término da leitura, dei 4 estrelas no Goodreads porque parte do final foi inesperado e o suspense jogado na última página me fez esquecer muitos dos defeitos que encontrei ao longo do livro. Além disso, pareceu-me a construção de algo maior que seria desenvolvido em Enders, mas, pensando melhor, acho que merecia 3 ou 3,5 no máximo.

ATENÇÃO: Fim da resenha do primeiro livro da duologia. A próxima se refere à conclusão da história e haverá spoilers da primeira parte. Para evitá-los, leia apenas o VEREDITO no final do post clicando aqui.


ENDERS
Ninguém é realmente o que parece
Após a demolição da Prime Destinations, Callie pensou que poderia viver em paz ao lado de Tyler e Michael. O banco de corpos foi destruído para sempre e Callie nunca mais terá que alugar-se para os detestáveis Enders. No entanto, ela e Michael têm o chip implantado no cérebro e ainda podem ser controlados. Além disso, o Velho continua a se comunicar com Callie. O pesadelo não terminou. Agora ela procura uma maneira de remover o chip – isso pode custar sua vida, mas vai silenciar a voz que fala em sua mente. Se continuar sob o domínio dos Enders, Callie estará constantemente sujeita a fazer o que não quer, inclusive contra as pessoas que mais ama. Ela tem pouco tempo. Decidida a descobrir quem de fato é o Velho e desejando mais que tudo uma vida normal para si e para o irmão, a garota vai lutar pela verdade. Custe o que custar.

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Diferentemente de Starters, que foi razoavelmente divertido, Enders é uma decadência sem fim. Enquanto o primeiro livro tinha falhas, o segundo é a própria falha em forma de história... Não sei o que houve com Price na transição de uma obra para a outra, mas ela sofreu um retrocesso palpável em suas habilidades como escritora.

Suas sentenças estão tão pobres de emoção que podem ser comparadas a livros que leio obrigada pelo meu curso. Tudo soa não natural, forçado, quebrado, bagunçado e os diálogos não são convincentes. Mesmo não sendo escritora, peguei-me pensando coisas como “isso ficaria escrito melhor de tal forma” incontáveis vezes.

Price também não sabe criar palavras que não pareçam ridículas no mundo retratado em seu livro. Zype? Zing? Z-mail? Chamar a internet apenas de páginas? É claro que isso não interfere na história em si, mas é bem chato ficar encontrando essas ofensas durante a leitura.

Callie, que foi uma protagonista quase decente em Starters, se torna burra, chata, inconstante e extremamente egoísta. Um exemplo de estupidez foi aparecer em área perigosa com roupas caríssimas e deixar a bolsa de lado enquanto conversa com um estranho. Gente? Mesmo quem nunca morou na rua não faz tais coisas! Sem contar as diversas vezes que se pôs em perigo desnecessariamente.

Outra coisa que me irritou bastante foi o fato de ela simplesmente não conseguir formar uma amizade “comum” com rapazes. Sempre, sempre, sempre tinha um fundo romântico em seu relacionamento com eles! O que é incrível, contando que, além do chip alterado, ela não tem absolutamente nada de especial.

O seu primeiro “namorado”, com quem ela teve ótimos momentos no primeiro livro, é tratado com uma frieza sem tamanho no início de Enders, pelo motivo explicado em Starters: ele também era um Metal (termo genial para se referir aos adolescentes que tem chip), ou seja, ela não teve um caso com ele, mas com o Velho. RIP †

As motivações e atitudes de Callie também são bem incoerentes. Ela se preocupa tanto com o irmão que o deixa aos cuidados de qualquer um que aparece e sai pelo mundo dando uma de super-heroína. E o que dizer de Michael, seu amigo de infância e primeiro interesse amoroso? Ela nunca deixa claro o que quer ou não com ele.

As reviravoltas na história aconteciam em um piscar de olhos e um arco era jogado em cima do outro sem dó. Com novos problemas despontando a cada instante, não existia fluidez nas transições. Além disso, os vilões eram quase onipresentes e os mocinhos tinham habilidades mais convenientes que o cinto do Batman.

Personagens surgiam, desapareciam e não lembro o nome de ninguém! Para ser bem sincera, tive que pesquisar nomes e termos escrevendo esta resenha – e eu tenho memória invejável. Com isso, entendo que foi tudo tão tedioso que sequer me causou sentimentos negativos. Não houve “má impressão” porque impressão alguma foi deixad-- Do que estávamos falando mesmo? Ah, sim... Enders!

O final é bem ruim. Há, outra vez, acontecimentos extremamente “apropriados para o momento”, é corrido, muitas perguntas não são respondidas e não há conclusão real. A sensação que tive foi de tudo estar acontecendo ao mesmo tempo e, no parágrafo seguinte, uma calmaria perturbadora ter atingido a obra.

A Guerra dos Esporos? O livro não explica porque aconteceu ou contra quem lutaram e, na verdade, não me importo, mas creio que muitos iriam querer uma explicação. Eu, por outro lado, gostaria de saber como tanta coisa ocorreu no momento certo, da forma certa e quando tudo parecia perdido SEM FELIX FELICIS.

VEREDITO

Apesar de Starters ser um livro decente, Enders, sua continuação, falha em muitos aspectos. Pergunto-me se era para ter sido um volume só. Acredito que, se fosse dessa forma, teria uma visão menos negativa da duologia e Enders pareceria o clímax de uma obra muito longa, e não os restos de uma ideia que a autora não soube desenvolver.

Sequer consegui pensar em um único ponto positivo para mencionar sobre a segunda parte, além da boa premissa (que não garante uma boa história, então não é válido). Logo, não considero adequado indicar a primeira obra, uma vez que o desfecho dela é extremamente enfadonho e nada satisfatório.

1,5/5
NÃO RECOMENDO!
 
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