Revisitando: Harry Potter e a Pedra Filosofal


Inventei de reler e reassistir toda a saga Harry Potter de maneira intercalada, ou seja, logo após ler um dos livros, assisto ao filme que foi baseado nele. Dessa forma, posso perceber o que foi perdido na adaptação e o que ganhamos também (a galera antiadaptação nunca admite, mas tem certas coisas que ficam melhores nos filmes).

Se você nunca leu ou assistiu Harry Potter e a Pedra Filosofal, pretende fazê-lo e se importa com spoilers, sugiro que ignore esse post e leia o anterior. Caso contrário, pode apreciar sem medo os comentários de uma criatura que realmente acreditava que ia conhecer o Dan Radcliffe no “futuro” (hey, eu ainda não morri, então ainda há esperança).


Primeiro, devo dizer que me segurei diversas vezes para não chorar durante a leitura. Não reli o livro nenhuma vez desde o fim da série, então ter os mistérios reapresentados a mim me emocionou bastante, principalmente por já conhecer a verdadeira história de todos (o amor dos pais do Harry, o sofrimento do Snape e o maior desejo de Dumbledore).

Vi com outros olhos o que Harry passava em casa: quando era criança, me parecia aqueles filmes de Sessão da Tarde, onde o valentão persegue o menino pequeno e bonzinho. Agora, vejo uma criança indefesa que, até os 10 anos, não conheceu outra família, além daqueles que lhe desprezavam, maltratavam e o deixavam passar privações.


Chorei imaginando o que foi passar cada data comemorativa desejando carinho e atenção, ganhar meias velhas de aniversário, não poder comer dos melhores pratos no Natal, dormir em um armário sob a escada e ser tratado a todo momento como culpado, sem sequer saber o motivo.

Harry foi uma criança que cresceu sem conhecer abraços, beijos, roupas novas ou qualquer coisa boa. Nem amigos na escola tinha, uma vez que ninguém queria ficar contra a gangue do seu primo, que demonstrava detestá-lo. O livro não diz, mas não é difícil imaginá-lo chorando abraçado a qualquer coisa remotamente macia.


Quando Harry ganha Edwiges em seu aniversário, fica tão agradecido e sem saber o que fazer, que acaba agradecendo Hagrid mil vezes, pois era seu primeiro presente decente. No Natal, apesar de Malfoy lhe jogar na cara que sua família não o queria por perto, ele tem o melhor de sua vida ao lado dos Weasleys.

Algo que eu gostaria que tivesse sido incluído nos filmes era Harry sendo cumprimentado por “estranhos” na rua. O mundo mágico não é totalmente à parte do universo trouxa e, hora ou outra, bruxos encontravam Harry nas ruas, o reconheciam pela sua cicatriz e o cumprimentavam, deixando o menino bem confuso.


Em compensação, uma de minhas cenas mais queridas não está no livro: Hogwarts está adormecida, mas Harry está à janela, observando a paisagem e fazendo carinho em Edwiges. Fica claro que o menino pensa em sua vida e em como, finalmente, encontrou um lugar para chamar de lar, onde tem pessoas que o conhecem (porque sua família, muitas vezes, fingia que ele não existia) e gostam dele. 

Uma das maiores perdas se dá na detenção. No livro, quem vai à Floresta Negra com Hagrid e Canino é Harry, Hermione, Neville e Draco, mas, no filme, substituíram Neville por Ron. A troca é compreensível, afinal o telespectador tinha que se apegar ao trio principal, mas tirou o impacto dos dez pontos creditados a Neville no fim do filme.


Gostaria que tivessem mostrado mais do quão difícil era para Ron ser o caçula dos rapazes Weasley: Gui foi monitor-chefe, obteve doze NOMs e, mais tarde, foi trabalhar em Gringotes; Carlinhos foi apanhador da Grifinória e, mais tarde, Capitão – só não se tornou profissional por preferir estudar dragões; Percy era monitor; e os gêmeos, além de serem batedores da Grifinória, tiravam notas muito boas e eram considerados engraçados por todos.

Ron chega a dizer algo semelhante a “não importa o que eu faça, alguém já vai ter feito antes”. Essa baixa autoestima e necessidade de provar que também pode ser alguma coisa (lembrando que sequer desejado o rapaz foi, já que seus pais estavam tentando ter uma menina) é quase inexistente nos filmes, tirando boa parte da profundidade do personagem.


Cresci vendo fãs da saga dizendo que o garoto não merecia Hermione, alegando que ele era grosseiro e feio para ela. Relendo, percebi que Hermione não é bonita demais para ele – talvez Emma Watson seja, mas a personagem não – e ele só era rude como resposta a atitude mandona e metida à sabe-tudo que dominava a garota e o fazia relembrar que talvez ele nunca fosse ser tão bom.

Como último comentário relacionado ao meu filho Ronald Weasley, digo que lamento muito ele ter sido colocado como donzela em perigo na cena com o Visgo do Diabo. Nos livros, Hermione lembra que a planta odeia fogo, mas lamenta não ter madeira para criar um, então Ron grita: “VOCÊ ESTÁ MALUCA? VOCÊ É UMA BRUXA OU NÃO?”, afinal o único criado em meio a magia e que tem tal coisa como pensamento imediato entre eles é Ron.


Fora isso, é uma pena não terem tornado mais emocionante a cena em que Dumbledore fala sobre o amor de Lily a Harry. Seria bom fazer com que sentíssemos o quão doloroso foi crescer sem família e o quão tocado o garoto ficava quando mencionavam seus pais, afinal ele raramente ouvia falarem deles.

Em contrapartida, a adaptação teve seus momentos onde superou a obra original, como na partida de quadribol. É difícil formar uma imagem decente do jogo tendo apenas as palavras de Rowling, mas o filme resolve esse problema e aprofunda o momento, tornando muito mais fácil compreender como Harry foi parar com o pomo-de-ouro na boca.


A aula de voo também foi mais explorada no longa-metragem, com o “passeio” involuntário de Neville. Essa cena também nos deu outra visão de Draco, mostrando-o um pouco mais corajoso e habilidoso do que é no livro. Rowling já chegou a afirmar que fica surpresa com a quantidade de fãs do personagem e que deve isso ao charme de Tom Felton.

A passagem para o Beco Diagonal que, no livro, parece ser como as portas de um elevador, é mais interessante no filme. Bem como a plataforma 9¾  e vários outros detalhes dos cenários, que foram muito bem pensados e se tornaram ótimas adições a escrita não tão detalhada do primeiro livro.


Foi ótimo cortarem toda a enrolação com Hagrid e o dragão Norberto. A leitura é levemente divertida, mas não creio que seria interessante assistir aquilo, porque, convenhamos: para um filme voltado ao público infanto-juvenil, já é bem longo, e esse momento é uma daquelas cenas que dá para sobreviver sem.

No fim, acredito que o mais importante foi feito em A Pedra Filosofal: o filme fala por si. Não é necessário ter lido o livro para entender a adaptação, logo, esta se tornou uma porta para muitos conhecerem a saga e se tornarem fãs de tudo relacionado a esse universo.

E vocês? Gostam de Harry Potter? Chegaram a ler os livros ou só ficaram nos filmes?

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PS: Assistam a versão estendida. Somam menos de dez minutos e contribuem para a fluidez do filme. 

PS2: Nem havia me tocado, mas hoje é aniversário de 28 anos do Rupert Grint (Ron)! Happy birthday, baby!
 
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