Transtorno mental: ter ou ser?


Em um mundo onde o Google se tornou psicólogo e médico e todos têm algum transtorno mental, tenho medo de abrir a boca e, sem perceber, invalidar o sofrimento de alguém, mas ficar calada quando vejo pessoas se “vestindo de doença” e apelando para os remédios é um tremendo erro.

Adoramos dizer por aí que não gostamos de ser rotulados, discursar sobre subjetividade – mesmo sem nem saber o que é isso – e sobre como cada ser humano é único... Mas, muitas vezes, não conseguimos fugir da zona de conforto que é o rótulo de uma doença de ordem psíquica.

É mais “fácil” se aceitar como pessoa depressiva (por exemplo) e, dessa forma, justificar tudo que dá errado em sua vida e suas falhas de caráter com a doença, do que procurar entender o que desencadeou esse sofrimento e ter que se colocar em posição vulnerável ao lidar com suas dores e defeitos.

É mais fácil ter todo mundo sentindo pena da gente.

Já tive depressão e entendo como colocar todos os nossos problemas como culpa da doença parece o melhor caminho. Mas não é. É como cobrir o machucado com a mão para a mãe não ver que você estava correndo quando ela mandou ficar quieto: não sara nada, só enche de bactéria e, cedo ou tarde, todo mundo vai ver.

Infelizmente, já presenciei conhecidos culpando o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH/DDA) por mentir para a namorada, chamando gestos estranhos que alguém fazia por puro maneirismo de “autismo” e sequer consigo contar quantas vezes ouvi coisas como “só preciso de remédio”! Ah, e por falar nisso...

REMÉDIO

Para minha “sorte”, sempre detestei remédio e evito ao máximo utilizá-los, por saber que o corpo se acostuma a eles e logo você tem que trocar por um mais forte. Além disso, nunca achei que fariam o trabalho todo e imaginava que havia possibilidade de se tornar um vício. Mais tarde, estudando psicologia, descobri que estava certa.

Remédio sem mudança de vida só gera dependência. 

Apenas o remédio só te emagrece demais, engorda demais, faz dormir demais, deixa elétrico demais, tira sua libido demais, dá a impressão de melhora rápido demais e, por fim, vicia na mesma velocidade.

Muitos dos transtornos que assolam nossa sociedade têm sua solução na psicoterapia. Na maioria dos episódios, não é necessário enfiar tarja preta goela abaixo para lidar com ansiedade leve e carregar a caixinha como atestado de doença (ou de tudo que gostamos de chamar de doença, mas não é).

Não sou contra remédios – são necessários em casos específicos –, mas, sim, contra a banalização do uso e sei que precisamos atingir um estado de equilíbrio, pois vivemos em extremos: de um lado, temos quem ainda crê que psicólogos e psiquiatras são “coisas para doido”; de outro, quem pesquisa seus sintomas no Google e já chega ao consultório com o próprio diagnóstico em mãos.


Profissionais da saúde, por favor, vamos fazer nosso trabalho direito.

Não adianta colocar a culpa apenas no paciente, quando muitos profissionais perpetuam essa prática e aceitam a fala do paciente sem se dar o trabalho de investigar. Para vocês terem um ideia, uma conhecida foi a uma médica e nutróloga buscando uma dieta e saiu do consultório com a receita de um antidepressivo porque disse que comia sem estar com fome”.

Ensinem seus clientes ou pacientes que assumir que não estão bem como primeiro passo para o tratamento é muito diferente de aceitar e desistir. Eles não são Ansiedade, Depressão, TOC, TDAH, Transtorno Maníaco-Depressivo ou Síndrome do Pânico. Eles são seres humanos.

Enfim... É ótimo que haja conscientização em relação a transtornos mentais, mas é péssimo que muitos tenham deixado de ser pessoas que, porventura, sofrem de algum mal, para se tornar a doença personificada.



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